segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Todas as formas de amor.

ele não me comprava flores
mas não dormia
enquanto não secasse
todas as minhas lágrimas.
ele não dizia eu te amo o tempo todo
mas sabia como me fazer relaxar
depois de um dia difícil.
ele não segurava minha mão na rua
mas me ensinava sobre como
amor também é sobre
entender a limitação do outro
e crescer junto.
ele não me beijava na rua
mas fazia com que eu coubesse
dentro de seus compridos braços
quando a vida ficava pesada demais.
ele não me apresentou à família
mas só parava quieto quando
me fazia sorrir quando eu estava
mal humorada.
ele não me pagava jantares
mas deixava que eu fizesse dele um ninho
quando eu era tomada por dores de cabeça e cólicas.
ele parecia não se importar
mas não colocava (tanto) coentro na comida
porque eu não gostava
e adocicou um pouco dos seus drinks clássicos favoritos
até eu entender um pouco que até o amargor tem seu momento.
por mais que eu negasse,
seu amor estava
no sabor da comida que fazíamos
na bebida que tocava os nossos lábios
no afago
e na procura.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Outros anos de amores.

eu dormi com a tv ligada
só pra não me sentir tão sozinha
assim 

mas agora eu não tenho mais tv.

- - -

que o verão
não deixe isso esfriar 
(mas parece
que o inverno 
chegou) 

- - -

você me tratava feito 
coca sem gás 
(até que você gostava) 
e eu te tratava
feio vinho
raro, único 
louca para sentir
teu gosto 
e mexer com meus sentidos 
cheia de medo 
de desperdiçar. 

e nem o biscoitinho do delivery
veio com a sorte 

não sei o que te fiz
para merecer teu nada
não sei o que te fiz
mas espero que você durma bem 
não havia uma fantasia minha 
que você não pudesse realizar
não havia nenhum sonho seu 
que eu pudesse realizar 

quase um crime
eu me deitar em lençóis 
tão frios 
sem você 

não tem depois 

- - - - - 

se eu não fui sua a musa pra
você escrever suas músicas
não me culpe por 
você ter me encantado ao ponto
de tudo que eu escrevo
ter um pouco de você

- - - - 

imagine só 
quem diria
que os nossos pra sempres
iam ser eternizados
separados. 

eu te prometi 
um pra sempre
mas você sequer
deixou eu cumprir
o que eu tinha te dito. 

eu te perguntava
onde você tinha andado
por toda minha vida
e agora que eu sei
teu nome
tua casa
teu cheiro e teus olhos
me dói saber
que eles estão por aí 
mas não são meus
e preferem andar
sem mim. 

que tua boca prefere outro nome
tua casa abriga outro coração 
teu cheiro de mistura ao dela
e que teus olhos preferem outros que não os meus.

queria que nosso amor
não valesse a pena desse horror.

- - - 

eu só não queria dormir sozinha
nessa noite tão fria 
não para de chover lá fora
as nuvens ficaram com inveja dos meus olhos
tentaram competir um pouco
mas são três dias chovendo sem parar 
chove, chove, chove 
a água se acumula na rua
alaga a garagem 
me afogo lá mesmo
sem nem enxergar direito o que me vem pela frente
enxurrada
porrada 

eu só não queria dormir sozinha
hoje 

quem sabe amanhã
eu não sei
ninguém sabe
só sei que sinto
que morro
um dia
não hoje
talvez nem amanhã

saudade
aperta
fura
o peito 
e eu nem sabia
que um sentimento tão abstrato
e relativo
podia ser tão concreto
tão duro quanto
a dor é que nem quando você rala
o joelho no chão cinza, áspero 
só que no coração 

não dá pra você 
musicar minha dor 
não dá pra você musicar
minha carta, meu poema, meu grito, minha lástima
meu amor
agora é só um show de horror
ninguém sabe o que tá fazendo
nem pra onde vai
mas tem que levantar a bunda da cama
sair do pijama velho 
ir pro trabalho
mudar de trabalho, talvez
enfiar as tristezas e as memórias num saco
(por ora)
e viver
como se o que aconteceu
fosse só um aprendizado
como quando você falha numa prova
e que você não poder repetir 
até porque, infelizmente, 
não tem como ser jubilado 
no seu amor
talvez a gente seja levado a acreditar
que somos jovens demais pra saber quem somos
só sei que amei 
e esse amor me pesa 
me deixa corcunda
não me deixa comer
ouvir musica
caminhar por aí 
sequer deixar eu escrever
(me culpo por ser mais um bando de versos sobre você) 
mal respiro, sequer
sinto falta de uma coisa que não volta
mas que volta em partes
não totalmente
não como eu quero 
pelo menos não que eu saiba
mas
ah,
se eu soubesse
se eu soubesse… 
se eu soubesse talvez
talvez houvesse nada a se fazer
se não esperar ser acertada de novo
pelo teu amor tão doce
mas
também
não posso ficar a espera
de uma felicidade
que eu nem sei se vem
se me quer

se pensa, assim, como eu, 
e também não quer passar
essa noite sozinho 
mas tem medo de assumir
porque dizer que ama
e sente falta
é pesado demais
pros orgulhosos
e pros que têm a vida pela frente
e não se podem deixar levar
por uma coisa tão
singela
boba
frágil
e sublime
tipo o amor. 

(eu só queria saber)

- - - -

a primeira vez que disse eu te amo

meu amor por você 
é simples e puro 
tal como este laço 
e a doçura dessa
sobremesa. 

não precisa 
de muitos cuidados
para ser manuseado,
talvez a superfície 
seja quebrável,
que nem vidro; 
mas é denso
e doce. 

por mais que você 
queira deixar pra lá
eu juro que 
mais uma colheirada
não vai te fazer mal algum…
pelo contrário:
só mais feliz.

não hesite.
o que tem no pote acaba
mas o que tem dentro de mim não. 

feliz dia da paixão. 

 - - - - 

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Cerejeira.

Meu amor não é que nem uma cerejeira.
Ele não floresce lindo na primavera, colorido e perfumando o ar.
Muito pelo contrário.
Meu amor mais parecia com um cacto do que com qualquer coisa delicada.
Muito porque, eu passei muito tempo sob condições inóspitas,
reservando dentro de mim o que me fazia bem e
"espinhando" qualquer coisa que tentasse me machucar.

Quem com ferro fere, com ferro será ferido.

(fevereiro 2014)

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

medos.

a janela do meu quarto proclama o futuro com o jornal da semana passada. me dá um pouco de medo porque o horizonte é um pouco turvo, um tanto quanto confuso e assustador. não tem a ver com cortinas ou com nuvens. os jornais gritam manchetes que não gostaríamos de ler. dói votar em governantes em perpetuam sistemáticos mecanismos de corrupção, mas é pior ainda ver tamanha parcela dos que vivem sob as mesmas condições - em tese estudam a mesma história, leem os mesmos jornais - apoiar valores tão conturbados, tão contraditórios, tão desumanos.

enquanto a vida se encarrega de fazer a noite chegar, o amanhã parece um tanto quanto longe. há muito a se fazer e poucas horas para tal. o coração fica menor do que nosso punho, ao alto, levantado, apertado, angustiado, ansioso. é preciso transformação. uma metamorfose mais rápida do que a das lagartas. mas dizem que o dia raia e as coisas se ajeitam. admiro quem tem paciência para que as coisas sejam ajeitadas. eu preciso me levantar. preciso levantar a minha voz. preciso dizer que existo, que sinto.

as primeiras cigarras anunciam a chegada do verão. quero que o tempo cure as minhas dores - mas tenho medo que ele passe rápido demais. as mulheres da minha vida estão sentindo o peso da idade. me pergunto se não enlouqueço sem elas aqui. espero que quando os raios de sol em dezembro tocaram minha pele, meu coração já esteja abraçado com uma paz novamente. mesmo que eu duvide dela como sempre passo.

é preciso ficar bem. é preciso resistir aos medos. é preciso resistir àqueles que insistem em propagar o ruim. é preciso estar alerta. é preciso estar forte. é preciso seguir. mesmo que o amanhã assuste. mesmo que o coração aperte. é preciso seguir.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

ordens maiúsculas (ou ação).

Me beija. Me marca. Me aperta com teus braços à minha volta quando estiver ventando lá fora e os vidros da sua janela estiverem batendo. Briga comigo. Mas fica. Faz café da manhã. Me traz uma cerveja antes do filme começar. Coloca uma música no toca disco enquanto você percorre meu corpo com mãos, unhas, sentidos. Me morde, me pede para ficar. Não diga eu te amo, me abraça quando eu chorar. Me conta dos teus medos. Da tua maior vergonha quando criança. Me fale sobre teu lugar preferido no mundo. Me leve lá. Diga que precisa de mim. Porque eu já preciso de você também. Me dê outro beijo. Me faça uma bebida. Respire no meu pescoço. Faça graça da minha pronúncia em francês. Me ensina a fazer churrasco. Me escuta falando por horas. Segura a minha mão antes de dormir. Deixa eu cuidar de você quando o dia tiver sido ruim. Mas prometo que não será com massagem pois sei que você não gosta. Vamos ao cinema e me explica porquê você chorou. Deixa o som da tua risada virar minha nova música favorita. Deixa que eu grite para os quatro cantos que eu sou sua. Queira ser meu. Deixa eu acariciar teu cabelo, enrolar meus dedos nos teus cachos negros, quanto tomamos cerveja no teu bar favorito. Deixa eu entrar. Deixa eu fazer parte dos teus planos. Deixa eles se misturarem com os meus. Deixa a tua vida se emaranhar na minha, tal e qual nossas pernas compridas dão nós pela noite. Não queira que eu me vá. Não me deixe. Que eu baste para você e você sempre baste para mim. 

quarta-feira, 30 de maio de 2018

alguns.

1
teve um dia
que você soltou
a minha mão
e nunca mais
pegou de volta

- -  - -

2
os meus dedos conhecem
os desenhos das ondas
dos teus cabelos
pretos
que nem teus olhos
esses que jamais
marejaram
mesmo quando eu disse
que não voltava mais
os teus dedos conhecem
os desenhos das minhas costas
assim como
os das cortas da tua
guitarra
precisos
viajantes
avassaladores

- -  - -

3
ansiedade é um
ponto preto
dentro do universo
que cabe dentro de nós;
pequena, se torna
maior que nós mesmos
é o medo de ir dormir
não porque se tem medo do escuro
mas sim do travesseiro
e a falta de contato entre as palpebras
ansiedade é o prato que se come frio
porque precisou arrumar toda a cozinha antes
ansiedade é não ouvir todo o cd,
e levantar três pontos de ônibus antes;
é a respiração acelerada
e os cenários
infinitos
de total caos
por que voce não desliga,
para parar de ouvir a (própria) voz?
não se desliga
e pensar na impossibilidade de desligar
é torturante
a voz sou eu
a voz não pode ser eu

- -  - -

4
é difícil escrever sobre você
quando apaixonada
não estou mais.

domingo, 13 de maio de 2018

borboleta.

eu abro os jornais, e eu leio as notícias e isso me dá medo. como pode tanta coisa ruim acontecer. será que eles focam no ruim ou é só a gente que só quer se negligenciar. é preciso ver as coisas belas da vida, eu penso. outro dia tava no carro, vi uma borboleta linda, cheia de vida planando no ar, pensei comigo como as coisas podem ser simples - e são. de repente vem um ônibus e leva a coitada, a imprensa no vidro e a arrasta por sei lá quantos quilômetros na jardim botânico. me pergunto se ela se recuperou da vida atropelando ela ou se suas asas foram cortadas por um descuido da vida, uma intervenção do homem em uma natureza tão bonita. como podem as coisas serem tão desequilibradas se viemos da natureza e a natureza é tão perfeitamente amarrada. e são nessas horas que eu juro que eu não me aguento mais. não me aguento sentir que bra da; um erro de conceito; uma falha no sistema - pane no sistema alguém me desconfigurou - do corpo inteiro, de uma vida inteira. vida, não é ela uma dádiva. por que tanto medo? eu juro que as vezes minhas células tremem de tanto medo. medo. medo do tempo. do vento, da chuva, de tanto sol. do que passa no relógio. que passa, passa, passa, foge da mão, (des)controla a nossa existência. medo de não pagar as contas, medo de não dar conta, medo de não chegar lá. lá onde. não sei. mas sei que estamos todos indo a algum lugar. tem muita coisa no mundo que eu quero ver antes dos 30. e os 30 tão logo ali, gritando. e depois, o quê? o ataque do relógio biológico, a contínua quase certeza de que morreremos sozinhos. eu digo que está tudo bem, é que está mesmo, mas não entendo de onde vem todo esse medo. medo. medo que me lembra toda vez que estou bem. que talvez não esteja. que nunca achei que ia estar sozinha de verdade porque teria meu irmão, mas meu irmão não tá mais aqui. e todo o resto, assim como isso, não me define. minhas incertezas não me definem - que dirá as certezas que mudam tanto. eu gostava de verde agora já não sei se gosto tanto assim. hoje já gosto de azul mas amanhã já não sei tanto assim. meu armário continua tendo - somente - uma peça de roupa rosa e eu não sei como mas isso me caracteriza de alguma forma. eu aprendi finalmente a tomar café sem açúcar e eu jurava que isso jamais aconteceria. minhas certezas não valem nada. nada. eu não tenho controle absolutamente de nada nessa vida - não sei onde deixo minhas escovas de dente e tropeço nas minhas indecisões sobre gostar de alguém de novo. tem uma ditadura esquisita que diz que deveríamos seguir determinados padrões mas ainda ainda assim não termos raízes e sermos livres - como aquela borboleta. mas a vida nos atropela, sem dó nem piedade, que nem o ônibus. tem vezes que eu nem olho pros dois lados da rua ao atravessar. eu não quero ter minhas asas machucadas - tampouco sei se sei voar.