domingo, 27 de dezembro de 2015

Tem muito tempo.

tem muito tempo que não pego no papel. me sinto um pouco velha. não velha, velha com rugas. mas velha como se tivesse se passado muito tempo. mas não me sinto mais sábia. o tempo passou rápido, ontem mesmo eu estava com os meus seis melhores amigos tocando violão no pátio da escola e me perguntando se eu realmente iria sentir falta daquilo. meus amigos não estão na cidade. tão por aí, em nova york, paris, londres, lisboa e eu aqui tentando entender como é que eu recebo meu diploma em duas semanas. como é que meu anti penúltimo amor virou um desamor e como que pessoas que eu jamais sonharia com agora quero perto de mim, tão perto que fica difícil respirar. quando é que eu passei de estou chorando na posição fetal por você para eu não me importo com droga nenhuma. quando é que o chocolate ficou tão caro assim, eu quero um namorado para sustentar meus desejos irracionais de cacau às quatro da manhã. mas eu não quero ter que atender telefone quando estiver no bar, nem ser obrigada a sair de casa às oito da noite para ir em algum lugar onde cara, tem uma festa muito legal e você tem que conhecer meu amigo que trabalha comigo mas você não conhece porque você tá sempre cansada demais pra sair. eu quero continuar amando todo mundo, mas tá difícil quando trocam meu amor por um chute no estômago no meio de uma tal festa qualquer.

tem muito tempo que eu não pego no papel. eu quero encher minha pele de tinta até me arrepender. não consigo olhar para fotos do meu irmão durante muito tempo mas não tem ninguém com quem eu possa falar sobre isso sem parecer piegas. alguém me diz que eu sou nova demais para preencher todo meu corpo com memórias - onde é que eu vou colocar as outras memórias de quando eu for mais velha. não sei se quero ser mais velha. acho que meu corpo tá finalmente chegando na idade da minha cabeça. não sou madura o suficiente, mas não sei se um dia vou ser. quando eu era pequena e estava muito animada para alguma coisa, eu achava que essa coisa nunca ia chegar, que eu ia morrer antes de acontecer - fosse meu aniversário, uma prova - ou o ano novo. quem eu estou enganando, eu ainda acho às vezes eu não vou ver a próxima semana chegar.

tem muito tempo que eu não pego no papel. é que eu passo madrugadas gastando um dinheiro que não é meu com amigos que eu não sei direito se são meus, em bares que eu não conheço, com garçons que eu nunca vi a cara. acho que meus amigos tão bebendo demais.

tem muito tempo que eu não pego no papel. eu sempre digo que eu vou quebrar o coração dele. alguma coisa vai dar errado. tá tudo muito certo e quanto tá tudo muito certo a gente desconfia. eu quero que as coisas fiquem assim, mas eu quero mais - não menos, talvez igual, mas mais com certeza, e acho que se eu quiser mais eu vou me arrepender, é que nem quando você come aquele último pedaço da torta depois de ter comido três pedaços seguidos e mesmo assim enfia mais uma colherada na boca e sente seu estômago se expandir na barriga. você jura que vai morrer de comer e isso é tipo a melhor forma de acharmos que vamos morrer. a primeira acho que todo mundo concorda qual é.

tem muito tempo que eu não pego no papel. é medo de escrever que quero me entregar pra ele, de cabeça e tudo, mas tenho medo das nossas cabeças colidirem. é que me ensinaram por muito tempo que eu não podia ser eu, que eu não podia nem chorar pequeno nem EXPLODIR E MULTIPLICAR MEU TAMANHO, porque emoções de verdade assustam. nem todo mundo tá preparado para lidar com o sentimento alheio. é por isso que eu não pego no papel há muito tempo: porque não quero escrever sobre pessoas emocionalmente incapazes, sobre monstros emocionais.

tem muito tempo que eu não pego no papel. porque tá tudo corrido e tudo passa rápido, quando eu vejo já são 23:33 e eu queria estar assistindo a quarta temporada de mad men, mas na verdade tô arrumando alguma coisa que eu ainda não arrumei mesmo tendo me mudado há 10 meses.

tem muito tempo que eu não pego no papel. eu talvez estivesse me afastando de gente que me faz mal, mas que eu gostaria que me fizesse bem e por isso foi tão difícil. elas provavelmente nunca vão entender. talvez eu estivesse ocupando meu tempo tentando aproveitar minha própria companhia porque percebi que as pessoas morrem e que as pessoas vão embora sem mais nem menos e é muito importante se amar, com todos os clichês e ridiculices da expressão. eu não sei me amo ainda, mas gosto mais de mim do que quando fui abandonada da última vez.

tem muito tempo que eu não pego no papel.
as coisas estão bem. por isso eu não pego tanto no papel.
ainda tenho - ah - tempo.

domingo, 29 de novembro de 2015

Crec trec.

ei, garoto,
eu vou quebrar seu coração
já consigo escutar
o crec, o trec
que nem num desenho animado
eu vou quebrar seu coração
não fique chateado
você foi avisado

ei, garoto,
não fica magoado
a gente se vê por aí
não me olha assim
tudo tem um fim

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Perfeitamente branco.

Ela tinha cabelos
perfeitamente brancos
e um sorriso
de tirar o chapéu

as histórias
eram tão boas
que ela contava
tantas vezes
até todos decorarem

seus olhos
de cor viva
reluziam a felicidade
dos filhos, netos
bisnetos

tinha um tempo
que eu não via
a senhora 
que me mostrou,
numa tarde fria de junho,
as fotos do seu maior amor

tanto tempo
que ela provavelmente
já me esquecera
mas eu,
eu nunca vou esquecer
da senhora de cabelos 
perfeitamente brancos
e sorriso de tirar o chapéu 

domingo, 13 de setembro de 2015

Bacana.

que filme interessante né; é, pois é, a menina é super engraçada, pena que não se fazem mais filmes como esses; pois é, ah, os anos noventa e as bandas legais e tristes; os seriados eram legais, olha friends e seinfield, por exemplo; você tem cara de quem chorou com o final de friends; claro que eu chorei com o final de friends, todo mundo chorou com o final de friends; eu nem gosto de friends tanto assim, é supervalorizado; como assim supervalorizado?; o final de seinfield é melhor; mas quem tá comparando?; o ser humano só sabe comparar; e julgar, pelo visto. para de me olhar assim; o que é, só estou te olhando, não posso?; não, não pode, olha pro outro lado, olha pra aquela menina passando do lado da rua; achei que você era feminista; eu não sou cega; você não quer que eu carregue sua bolsa, ela parece pesada; não, obrigada, eu me viro sozinha; tá, quer um sorvete? tem um ali perto da minha casa; tá, mas só se tiver de doce de leite; tem do sabor que você quiser;

moço, me vê um de doce de leite e outro de tapioca, por favor... toma, aqui, o seu; mas ué, não precisava, eu ia pagar; não, toma, você pagou o cinema; tá, brigada; tá bom o seu?; tá, tá ótimo, quer um pedaço?; quero, mas só se vier um um beijo; nossa, hum, que beijo gostoso que você tem; a gente devia ir lá pra casa; o que tem na sua casa?; ninguém; nem sua mãe, eu não gosto de encontrar com mães antes, sabe, de alguém me pedir em namoro; calma, é só minha mãe;

sua mãe é legal; é, eu sei, ela é ótima; sua coleção de discos também; parte era do meu pai; legal, você costuma ir nas feirinhas do centro?; é, vou lá sempre. você devia ir um dia comigo; claro, parece legal, é só me chamar; eu te chamo, sim; que é, por que você tá me olhando desse jeito?; eu não devia falar isso, mas você é muito legal, sabia?; é, legal não é o suficiente, né?; como assim? você é foda. incrível, maravilhosa; se eu sou isso tudo, por que você não fica comigo então?; não faz pergunta difícil, tá tarde; às vezes são três da manhã, outras vezes são suas ex namoradas, e outras são só sua cabeça esquisita; eu sei, me perdoa; não tem o que desculpar, eu não posso exigir; mas você exige, e muito; é que você é muito bacana e eu gosto de você à beça e isso me dá medo; medo por quê?; porque ser legal, foda, incrível e maravilhosa não basta muito pra você, né?


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Alguém já escreveu esta canção antes.

(sem data)
sinto falta
dos beijos
dos braços
dos amassos

acho que alguém
já escreveu essa canção
antes

mas era isso
pra mim
eu e você
éramos
música
o tempo
todo

porque talvez
você não me amasse
tanto
mas enquanto fóssemos
música
eu me garantia:

os gritos
das brigas
os gemidos
os sorrisos
e as lágrimas
(e)s(t)ão sós
(como eu)

queria que o mundo,
ah, todo mundo
estivesse certo
sobre a gente.
e nós
errados,
como sempre.

agora falta
alguém pra
compartilhar
o cd novo
daquela banda velha
e o velho cd
daquela cantora nova

te amo
ainda.

só que de nada mais vale
uma declaração por linhas tortas
porque alegria só conta
se for compartilhada
(com você)

e usted,
acá no esta más
porque não querer te basta:
não é em você que me afogo
quando o mundo fica pesado
demais.

"te amo"
mas já escreveram
essa canção antes.

"não te quero mais"
você já escreveu
esse verso antes.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Tic toc tun tun tun.

o relógio marca três e
pouca da manhã
é a hora perfeita
para más decisões

tic toc
tun tun tun
a batida do coração
marca o tempo
e o ritmo da música

as palavras são
descompassadas
os olhares são
descompromissados

quero meus amigos
com os copos
com suas vozes
e violões

não sei quem são essas
pessoas todas atrás de
bebida e rabos de saia

só sei que o relógio
marca três
a lua brilha
forte lá no alto
de azul ela não tem
nadinha, moço
tá branca, pálida
sozinha, como nós.

eu podia
te telefonar e
pedir pra você voltar
(ou pelo menos aparecer)
mas é que, pera lá
telefonar é tão demodê
e mensagens são dificilmente
respondidas mesmo com
horas de atrasos

por isso que
às três da manhã
eu me abstenho:
fico aqui no passado
marcado
do tic toc
e do tun tun
que diz que
já foi meu.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Cineasta.

quem você pensa que é
com essa biografia de uma diva pop debaixo do braço
seus óculos entre os dedos,
e seu casaco preto nas costas?

onde você pensa que vai
com essa marra toda?

onde você pensa que vai
com o meu coração na mão?
(volta aqui)

sábado, 13 de junho de 2015

Samuel (Carta aberta II)

esta é uma carta aberta para dizer que eu sinto sua falta. que o meu eu-lírico já não me basta para te encontrar e te contar sobre a vida. esta é uma carta tomada por um orgulho que está sendo engolido, amargo, arrastado pela minha garganta. esta era uma carta para falar de coisas boas; na verdade, eu queria que não fosse preciso escrever uma carta. é que a gente vive em um mundo difícil: dizer que a gente sente falta é sinal de fraqueza, de ser necessitado, de não superação. uma vez eu perguntei pro renato russo, em um devaneio meu, porque é tão importante ser corajoso. todos nós temos medos que não cabem em nós. esta é uma carta para dizer que eu ouvi o disco novo do muse e achei uma droga. mas que descobri um cara que toda violão na rua da carioca que é a sua cara. esta é uma carta bem no meu jeitinho, bem de letrinhas minúsculas, tímidas, me perguntando se eu não tô invadindo sua vida para variar um pouco. esta é uma carta para saber como vai seu cachorrinho. eu tenho uma foto dele no meu mural que ainda não está pronto. esta é uma carta para dizer que eu lembro. ainda lembro. esta é uma carta para dizer que eu queria que você devolvesse minhas músicas, como eu sinto falta de ouvir uns grandes cantores porque você me ninava, desenhava as notas das músicas nas minhas costas antes de dormir. esta é uma carta para te lembrar que na penúltima vez que te escrevi algo você fugiu de medo e a última você provavelmente rasgou. esta é uma carta para dizer que eu nunca entendi nada do que aconteceu. e o que aconteceu não me agrada. a gente não muda os acontecimentos, não controla consequências, mas lida com elas da forma que pode. e esta carta é para dizer que eu não gostei da forma que lidamos com isso. esta carta é para dizer que se um dia você ler essa carta, é porque nossas vidas foram para lados opostos e eu não sei mais qual é o queijo que você procura primeiro no mercado, mas que eu queria ouvir dos seus lábios que você sente falta de trocar palavras comigo. só palavras mesmo; que você lesse e dissesse que entende, seja tudo, seja em partes, diga que concorda ou discorda. esta carta não é para entender o porquê de tudo, mas para dizer que tem muita saudade no meu silêncio. é que sem /poder/ dizer que sinto a tua ausência, tudo o que veio antes me parece muito sem lógica - e pior: fantasioso.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Não quero, não.

não quero mais quebrar meu coraçãozinho
não quero mais ouvir as músicas
e sentir ele
cabum
no peito.

não quero mais fazer birra
morder só pra fazer carinho
depois.

não quero mais sentir raiva de você
mas dizem que é preciso
ter amor próprio
e pra tê-lo
eu não posso amar você

eu não quero mais quebrar meu coraçãozinho
ler cartas de quatro anos atrás
e me perguntar
quando foi que a gente se tornou
estranhos.

estranho,
eu não quero mais quebrar meu coraçãozinho
dizem que a gente gosta de sofrer,
eu gosto é de viver.

domingo, 31 de maio de 2015

Obsidianas II.

meu amor
que saudade assistir
o flamengo perdendo todos aqueles gols
domingo à tarde

que saudade de ouvir
só mais uma coisinha
rapidinho
antes de fisgar
mais uma fatia de salame

hoje não é uma data festiva
mas a gente ia comer lá no alemão
aqueles croquetes
e toda sua técnica exclusiva
de 100% de aproveitamento
(ao contrário do flamengo)

meu amor
que saudade de ouvir
você falando que o cristiano ronaldo
é melhor que o messi
tudo bem
você era novo
e tinha muito a aprender

meu amor
que saudade de ouvir você
com suas amigas ao telefone
e eu gritar, do lado,
como se tivesse a sua idade
sobre a sua mais nova paixão

meu amor
como me doi saber
que você não usou a capinha de gameboy
no celular
nem que você provou lábios alheios
nem foi da nasa
e nem se aposentou aos 40 pra virar
motorista de van

meu amor
como me doi ler
os eu te amos e os desenhos presos no mural
eu queria tatua-los por toda minha pele
só pra lembrar que seu amor era puro e pra sempre

neném,
se eu soubesse
eu teria aprendido a andar de skate
só pra te levar junto comigo

meu amor
na sexta-feira minha professora de espanhol perguntou:
"giulia, cuantos hermanos tienes"
e foi só silêncio
me desculpa,
não sei o que deu na minha cabeça

meu amor
são em domingos chuvosos que eu me pergunto
se a gente não podia ter aproveitado mais
os ensolarados.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Quinta-feira a noite.

eu queria que você tivesse deixado alguma coisa, para quintas-feiras à noite como essa. só pra lembrar do cheiro que a pipoca tinha misturado ao vento vindo da praia, com a música da nossa série favorita tocando ao fundo. eu queria que você tivesse deixando alguma coisa, um recado, uma mensagem. tô indo mas eu volto. sempre volto, e como eu queria que você, mesmo sem sequer ter ido, tivesse ficado. mas eu volto toda quinta-feira à noite. volto para a nossa primeira quarta-feira a noite, aquelas letras de música no telão, que nos levou à nossa quinta de manhã. o oi desconsertado, a vontade de querer mais. e que vontade. agora eu fico aqui, pequena, querendo, culpada, agarrada ao travesseiro enchendo a cara de vinho barato, sem ter uma canção de ninar quando o mundo parece ridiculamente pesado sem motivo aparente, sem o cafuné na cabeça, sem a tua mão na minha. eu queria que você tivesse deixado alguma coisa, só pro nosso amor não parecer aquela coisa louca de quando você acorda e não sabe se sonhou ou se foi verdade. esse pesadelo sem você é longo demais, me acorda. não é que nem a bela adormecida não, com beijo e tudo. é só com um ei, tô aqui te fazendo um suco de sei-lá-que-mistura que seu pai te ensinou quando você tinha uns quinze anos. queria que você tivesse deixado alguma coisa, tipo a chave da sua casa ou uma blusa velha. não é por nada não, mas é que eu queria te apresentar ao meu cachorro e falar um pouco do novo cd do blur. queria que você tivesse deixado alguma coisa, para eu te convidar para vir buscar, você conhecer meu quarto novo e sei lá, você reclamar da parede branca onde eu vou te contar que vai ter um quadro lindo dos beatles que vou ganhar. agora você já sabe. queria que você tivesse deixado alguma coisa. uma palavra, um convite pro café, um beijo no canto do lábio. queria que você tivesse deixado alguma coisa, para quinta-feira a noite, que fosse a blusa do flamengo no chão, no pé da tua cama. que fosse alguma coisa. mas hoje, quinta-feira a noite, não tem é nada.

domingo, 12 de abril de 2015

"oi, é que te escrevi uma coisa"

é que foi numa terça ou quinta feira
que eu me perdi entre umas palavras de inglês
e gaguejei no meio do "it's all good", 
e foi em alguns passos 
voltando pra casa
ou esperando a carona 
a risada por causa da tua piada
ecoou pelas ruas do bairro 
e foi aí
que eu vi
que o pé atrás 
já tinha chutado o pau da barraca. 

você vai reclamar
da inconsistência desses versos
e dizer que eles não têm ritmo
para a sua mais nova melodia
da sua guitarra preta
estrondosa
sozinha
ecoando no quarto
saindo do amplificador
fazendo brummm
dentro do peito 

não sei muito sobre
o rapaz do s forte
do chapéu
e da guitarra preta
me desculpe
é que mistérios
são apaixonantes
e você nunca vai entender
o quanto sua prepotência
me deixou curiosa
pronta pra fazer
mundos e fundos
des pe da ça rem 

eu nunca vou esquecer
da noite de dezembro
em que eu te joguei umas palavras
e ouvi um já sabia.
eu juro que isso ecoa em mim
que nem a última nota 
da sua melhor música
brummmm
não é barulho de carro
não é o som de uma de máquina
é só uma guitarra 
e meu coração
fazendo contrapasso. 

você sente com as cordas
só sei dizer por a mais b com as palavras,
mas as minhas palavras (te) cortam
tuas cordas contam 
todos os e ses do mundo
convergem aqui esta noite
na minha mão na tua
sem querer, 
gelada pela garrafa
suada
de cerveja, e de uns 
cafunés
perdidos entre
o dedilhado
da tua improvisação
mas perguntar, meu amor
é tão demodê… 
então ouço
o não
nas cordas 
da sua próxima canção: 
ficamos assim, 
na falta de um início meio e fim. 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Parcelado.

Somos todos famintos. Andei por entre os corredores a tua procura,
chocolate. Água sanitária, não, foco, papel higiênico, massa, molho de
tomate, cadê aquele biscoitinho? São oito e cinquenta da noite, meus
olhos, meus braços, eles se embaralham com a cesta vermelha do mercado
caro. Começa a pesar, minhas pálpebras, meus ombros. Tô cansada, 
são quase nove e eu acordo daqui a pouco. Filas qui lô me tri cas. Devolvi
um item a prateleira só para poder entrar no caixa de quinze voloumes.
Só quero sair daqui, não é normal banalizar jeff buckley na música
ambiente da lista de mês. Que ofensa, eu penso. Paro, boto a cesta no
chão e aí que te encontro. Te encontro. Alto, com seu óculos preto,
quadrado, cabelo ébano, bagunçado, camisa amarrotada. Derrotado pelo
dia, que nem eu. Mas vivo. Sua cesta acerta a minha no chão, como dois
estudantes que se esbarram na fila da cantina do ensino médio, acho
que deixei escapar um sorriso, que tonta. Você já até adivinha o que
eu queria pra hoje: um vinho, umas torradinhas e um queijinho. E
aquele chocolate ali? Você mexe os lábios conforme a música. Pressure,
pushing down on me, pushing down on you, no man ask for
. Acho que é
amor. À primeira vista, à primeira compra. Roça mais essa cesta na
minha, meu amor. Acho que é de verdade, não é possível que estas
coisas só aconteçam nos filmes bocós. Imagina nossos filhos daqui a
quatro anos no balanço da casa da sua mãe. Aposto que puxaram teus
olhos. Começo a pegar minhas coisas na cesta e a moça do caixa puxa a
esteirinha. Um pacote de cenourinhas cai, você se abaixa, me entrega,
algo vibra. Acho que é teu celular. Você atende. As compras vão
terminando de passar, nosso tempo tá acabando, meu amor. "Alô", você
diz, "tô chegando", eu passo o cartão. "Fica tranquila, paixão, que eu não
demoro". Parcela esse amor aí, moça.

É ilusão. À perder de vista.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Carta aberta pro Renato.

desculpa, renato.
eu sei que você deve estar descansando
mas você pode me ouvir um pouquinho,
já que eu já te ouvi tanto nessa vida?
é que não dá pra acreditar
que não é provar nada pra ninguém
e ao mesmo tempo
amar todo mundo
como se num tivesse amanhã
porque na real, renato,
não tem mesmo não.

não sei se você se foi antes
de perceber que todo mundo
acha mais descolado se fechar,
ou se foi até você que pregou isso,
me desculpa se eu perdi um pedaço
mas é que sei lá, renato,
eu olho pra rua e ninguém sorri de volta
até o bêbado tá bolado,
tudo bem, a economia tá ruimzona
culpa é da dilma e do fhc, do collor,
costa e silva e tal
mas eu juro que sei lá, renato
tá todo mundo esquisito
a gente pede desculpa quando erra
mas ninguém aceita de verdade
é mais fácil alimentar rancor

aí, renato
aparece uma doença que te come por dentro
ou uma porrada de carro
um infarto do coração
e aí, renato?
do que adiantou?
do que adiantou gritar com alguém no telefone
às duas e meia da manhã e perguntar
"por que tá acabando?"
se o que a gente queria era só pegar o carro
dirigir a 100 por hora
e se apertar
porque o ser humano, não importa o que digam,
ou o que os céticos acreditam (até eles, pois é),
ele é feito para conviver
para sorrir pro outro na esquina.
e renato, você vá me desculpar,
mas não tem aqui ninguém melhor que ninguém, não.
não é quem você namora,
quanto teu pai ganha,
ou onde você mora que diz alguma coisa sobre você
é como você trata quem você ama
e ninguém se ama mais.

e eu não sei mais nada de ninguém.

é que todo mundo morre igual, renato
não importa. todo mundo morre e a gente só
deixa pra sentir os buracos da ausência depois
quando na verdade, a gente sente falta das pessoas
todos
os
dias
mas dizer "oi, sinto sua falta"
é completo sinal de fraqueza.
eu nunca entendi porque ser fraco é tão ruim assim.
nunca entendi porque falar pra alguém
"que guerreira é você!"
é um elogio memorável.
renato, me desculpe,
na minha cabeça
você tá aí compondo com o cazuza
(desculpe por imprimir uma expectativa em vocês)
(mas manda um beijo pra ele também se vocês tiverem me ouvindo)

renato, é que eu sempre fui buscar nas suas músicas
alguns porquês da vida
e agora eu queria que você tivesse feito uma canção,
aquela canção.
mas pela primeira vez em 21 anos, renato,
você me falhou.
eu não tô achando, tô presa nas nossas incoerências
não que isso seja ruim, não,
e aí eu pensei aqui,
de repente você ia escrever amanhã
mas seu amanhã não chegou
de repente eu queria dizer eu te amo
mas a pessoa pra quem eu precisava dizer
também não.

agora eu vou ali
ler mais algumas obscenidades
escutar mais alguns foras
pra depois tatuarem na pele, renato
"é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã"
é que eles esquecem que,
na verdade
não há á á.


domingo, 22 de março de 2015

Sinfonia ortográfica.

você se exclamava tanto
com as minhas interrogações,
até me reticenciar
com um ponto final e brusco,
acabar com os travessões
todos entre mim e ti.

você me cantou um si
eu perguntei mas e se?
ora, que dó,
você deu ré.
às vezes, eu (mi) esqueço
às vezes, eu até te esqueço
é melhor virar a cara pra lá
caminhar pra ver o sol, sol, sol.
sustenido, sustentado, destemido.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Amanheceu.

amanheceu 
tão rápido 
quanto você se foi
as horas passaram
eu não sei muito bem por onde
eu e você andamos nos últimos tempos
só sei que não foi lado a lado

amanheceu rápido
a primeira luz do dia pintou o céu de roxo
antes sequer do sol despontar no horizonte 
que não enxergo da minha janela
mas me conforta saber
que o mesmo sol que te toca
neste verão
é o mesmo que me faz penar
andando pela rua
tropeçando nos nossos erros
(bêbados)

amanheceu
ainda é carnaval
ainda dá pra vestir a máscara
dizer que tá tudo bem
e não sei mais o quê
eu hei de fazer
ainda é carnaval
mas sei que eu e você, 
meu benzinho,
jamais seremos paixão 
de verão
de novo, mais outra vez.

amanheceu,
não tem mais comida na geladeira, 
mas chega aqui,
bate na minha porta,
traz o pão 
que eu te faço o café,
o leite com nescau,
o sanduiche de peito de peru e requeijão,
e aí, meu benzinho

pode ser carnaval
quarta-feira de cinzas, 
páscoa ou natal:
você pode ir embora 
quantas vezes quiser
basta você voltar, 
sem jeito, 
é só deixar amanhecer 
e na minha porta bater. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Troca-troca.

Tem tanta gente apaixonada
que não está junto;
Tem tanta gente junto
Que apaixonada não está. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

obsidianas.

hoje não é um dia especial. Talvez estejamos a poucos dias do seu aniversário, que, aliás, é uma data que disseram que sempre vamos lembrar. é claro que sempre vamos lembrar, mas que coisa estúpida. não é porque tem uma foto sua do lado do meu computador do trabalho; é porque elogiam seu sorriso, dizem que você se parecia comigo - e hoje eu sei que jamais sorrirei como sorrimos juntos um dia. e todo esse pretérito perfeito, imperfeito, mais que perfeito me deixa enjoada. enjoada porque eu vivo ouvindo de todo mundo que eu era tão guerreira quando você, mas tenho raiva de quem me fala isso. Porque não tem nada de forte no que está acontecendo agora. por te conhecer tanto, sei que você não estaria do meu lado nesta discussão. mas não teria problema, porque a gente conversaria e passaria a noite jogando videogame. e as coisas iam se levando. aliás, minha vida com você foi assim: você me ensinou que a gente tinha que levar. mas, depois que você se foi, parece que fomos todos obrigados a tomar mil decisões pra decidir tudo que empurramos ao longo dos anos, que, em seu tempo, não parecia tão importante assim. agora temos urgência. e essa urgência arrebata meu coração, me salga o rosto. eu sei que você não pode mais me ajudar, eu sei que você não pode mais postergar as coisas por aqui. e como eu queria. porque eu nunca achava que esse dia ia chegar. esse, de notícias tão ruins. e, depois que você se foi, as notícias ruins não pararam de chegar. só que quando você tava aqui, a gente chutava essas lamentações pra escanteio, porque a vida era curta. agora ela me parece longa, meu bem. tão longa, tão sem sentido. hoje não é um dia especial. amanhã provavelmente também não será. e postergaram nosso novo encontro, por qual eu tanto anseio. tudo que pode me ajudar não está. que nem você, só que diferente. e sinto. sinto a ausência. sinto o silêncio. sinto a falta do quarto garfo, do quarto copo, do quarto prato. sinto a falta da mão da maçaneta às duas de manhã, sinto todas as faltas, todas as ausências. e como cansa sentir vazios. sinto falta da objetividade da nossa postergação. sinto falta das linhas retas de um videogame que hoje está empoeirado. sinto o buraco e mais nada.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Vê se não demora.

Eu sou o Chico. Sou aquele cachorrinho que todo mundo diz que parece uma toalha e tem uma cor de língua engraçada. Tô aqui "procurando" meu dono. Digo, quer dizer, lato, tô tentando, porque tô meio amarrado aqui. Ele é um cara legal, me dava comida gostosa e água fresca! Até me comprou uma cama que é boa de me enrolar todo e me deixava dormir no quarto com ele quando ele ligava aquele negócio que fazia um barulhão, mas que deixava o ar mais fresco. É que a cidade onde eu nasci faz muito calor, sabe? Os outros au-aus adoram correr e ficar no sol, mas eu sou mais quietinho, não gosto muito de água, então fica meio ruim para mim, para me refrescar com mangueira que nem outros amiguinhos. Meu dono, que eu amo de verdade, eu abanava o rabo pra ele toda vez que ele chegava em casa... não sei ficar muito tempo longe dele. Sou meio assim. Acho que me perdi dele, mas não posso contar a ninguém. Sabia que ele costumava me dar biscoitinhos e brinquedinhos legais? Eu me balançava todo, mostrava a barriguinha para ele me fazer carinho.

De uns tempos pra cá ele começou a sumir, sabe? Eu fico perto da porta, esperando ele chegar o dia todinho. Juro. Tá, saio só pra beber água, mas depois volto pra lá. Toda vez que ouço a porta daquele treco esquisito fechando, eu enfio meu focinho debaixo da porta para ver se é ele. Cada vez ele demora mais. E quando ele chega, ele não faz mais carinho na minha cabeça. Acho que ele não está muito bem, queria ajudar. Dar umas lambidas, botar a patinha em cima da coxa dele pra ele sorrir pra mim e me fazer uns carinhos também. Ultimamente ele só tem passado, bota um pouco de comida no meu pote, às vezes até deixa cair do lado de fora e nem pega, sabe? Eu tento ficar perto dele, mas era como se ele não tivesse perto de mim. Eu fico super tristinho, choro a beça mas acho que ele não me entende.

Agora eu tô aqui. Eu tava dormindo na minha caminha, mas acordei aqui. Tô preso nesse ferro, não reconheço esse lugar - não tem cheiro de ninguém que eu conheça aqui. As pessoas passam, fazem carinho em mim, meio tristes - eu juro que queria poder ajudar: podia dar uma lambida nelas, aposto que elas iam ficar felizes... Mas não sei cadê meu dono. Espero que ele venha me buscar logo. Porque isso me lembra muito uma coisa que aconteceu uma vez, quando meu dono tinha uma amiga bonita, que brincava muito comigo e com ele também. Mas aí um dia ela foi embora com um treco que parece muito com esse que tá aqui do meu lado, que tá todo mundo falando que é meu. E meu dono ficou desse jeito aí, depois que ela foi embora.

Espero que ele não tenha feito o mesmo comigo, sabe? Gosto muito do meu dono, tô aqui esperando ele voltar.

Demora, demora, mas ele sempre volta.

(baseado em: http://www.onegreenplanet.org/news/dog-abandoned-at-the-railway-station-with-his-suitcase-of-belongings/)