domingo, 15 de dezembro de 2013

João.

João era só mais um garoto. Pelo menos à princípio. Seus cabelos eram loiro-escuros, seus olhos mel esverdeados. Bom, eu sei que João era bem mais que seus olhos e seu cabelo. Ele sabia disso. Aliás, João sabia que era mais do que todo mundo achava que ele era. Mesmo não fazendo ideia do que ia ser. Só sabia que seria grande. João não acreditava em Deus e fazia graça dos horóscopos de jornal. Andava sempre de relógio, mas o evitava nas horas de atraso. 

Por muito tempo, João foi só mais um cara qualquer. Não sabia porque vivia mas sabia que um dia viveria por música. Seus olhos eram só poesia quando ele estava afundado na imensidão do som do amplificador exageradamente alto e estourado do quarto dele. João era tão apaixonado por aquilo que, mesmo com uma mulher nua a sua frente, ele só ligaria para a guitarra em suas mãos. Ele era bem mais que Legião numa roda de violão. Quando o conheci, João era só mais um que fazia canções sobre garotas; que adorava noitadas com cerveja demais e que sonhava com a vida de rock star que jamais chegaria. 

João era só mais um que tinha um sonho de não ser só mais um alguém no meio de tanto ninguéns. João não queria ser um advogado renomado, nem um executivo com milhões na conta bancária. Ele queria o holofote, queria o microfone. Ele queria uma banda mas seus amigos não ligavam. 

João queria uma garota. Uma garota que servisse para suas músicas, que lhe beijasse enquanto ele não estivesse tocando violão. O problema era que garotas eram complicadas, garotas davam trabalho. E ele queria alguém que o virasse ao contrário. 

Aos 15, João fazia toda a força do mundo para não ser um filho exemplar, só pelo gosto de não o ser. Mais tarde, se esforçava para fugir dos óbvios dos esteriótipos que a sociedade pressionava sobre ele. João se revoltava contra o nada, polemizava o desnecessário só por um pouco de atenção. João queria os louros de um discurso filosófico pseudo-revoltado.

No fundo, eu sabia que João era muito mais do que suas críticas ácidas. Ele via nos outros o que ele tanto errava. João ia ser grande, mas só uma garota parecia enxergar isso. João era muito mais que seu desejo de ir longe, mas sua perspicácia ainda preguiçosa o empurrava para trás. 

Sabia que tinha muito mais por detrás daquele garoto de 18 que conheci semanas antes de um verão abafado. Talvez eu não fosse a única que tivesse o percebido, mas ele me apanhou primeiro. Apesar de todo o ceticismo, João era um dos garotos mais sensíveis que o mundo já viu. Não do tipo sentimentalista exacerbado, que chora por garotas que viu nos ônibus. Mas do tipo que percebe. E no mundo mecânico do século XXI, são raros garotos como João, mesmo que sejam tão cheios de características generalizadas. 

Talvez eu soubesse que nada podia fazer por João. Mas egoísta como só uma paixão adolescente pode ser, eu fiquei por perto. Ser a garota que ele tinha para beijar quando não estava tocando violão não era uma posição detestável. Às vezes eu só tocava o rosto dele de forma descuidada e desajeitada para saber que ele era de verdade. Muitas vezes era difícil de acreditar. João parecia que ia sumir a qualquer momento - para os braços de outra mulher, para outro continente talvez. 

Eu também sabia que não podia ser a musa que ele precisava para suas composições, mesmo que eventualmente ele tivesse se tornado o muso, o João que eu descrevo. Mas amores, como eu disse, são tão egóistas que às vezes eu me esquecia como toda a nossa história era incomum e ao mesmo tempo clichê desde o início. Como alguém que buscava mais um verso para o próximo poema, eu gostava do que não tinha de óbvio em João. Como alguém que queria amá-lo, a sua inconstantibilidade me era ameaçadora. 

Poderia dizer que João trilharia seu caminho sem maiores desvios de percuso. Mas para afirmar isso, João teria que ter um plano inicial. João, definitivamente, não era o tipo do cara com um plano. Ele era esquecido e se usava dos desvios e atalhos para guiar sua vida. 

Enquanto vivi com João, eu só pedia um apartamento pequeno quando terminássemos a faculdade. Mais tarde, viajaríamos o mundo, ele gravaria um CD, eu escreveria um livro. Meu amor por ele era tão grande e eu o mostraria em doses pequenas pelo resto da vida. Mas conhecendo João, sei que isso seria pacato demais pra ele. Não poderia planejar sua vida.

João, na verdade, merecia provar que era tudo aquilo que as pessoas não imaginavam que ele era. Tocar no Maracanã aos 25? Não. Tocar no Wembley aos 25! João merecia todo tempo do mundo com os todos os amigos maravilhosos, com a família tão enorme e gostosa que ele tinha. No fundo, eu talvez soubesse que não havia lugar para mim. 

João era um cara apaixonado pela vida. Isso dava para ver no momento que qualquer um o conhecia. Suas músicas favoritas evocavam vida nele. E foi aí que percebi que João era mais que um cara comum - ele era especial. 

Tudo bem, João era um cara terrível também. Batia pé e gritava se achasse necessário. Tenho certeza que ele quebrou vários corações além do meu. Ouvi falar de alguns. Posso não ter merecido uma canção ou, quem sabe, uma dedicatória no seu primeiro CD, mas sei que arranquei alguns suspiros de João. Ele pode ter sido um adolescente metido a revoltado, mas a certeza de que se tornaria um adulto incrível sempre foi óbvia, quase redundante. 

João. O cara dos sonhos grandes. Aquele que chegou lá. 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Música pela rua.

Eu estava caminhando pra casa outro dia e vi um CD quebrado no chão. Na mesma esquina de sempre, 3 quarteirões depois do meu ponto de ônibus. Digo "de sempre", porque já vi um CD da Hilary Duff também aos pedaços por ali e uma capa de um CD claramente copiado… ou era Hall & Oates ou Simon & Garfunkel, não lembro bem. Uma dupla dessas. Enfim, dessa vez era um daqueles cds regraváveis, com uma estranha letra. Não quis parar para ler direito, mas era uma daquelas breguisses como "seleção de músicas pro meu amor". Engraçado como eu sempre romantizei as mixtapes, aquelas fitinhas bonitinhas, mesmo sem ter um dia recebido uma, mas sempre achei sem graça essa história de seleção de músicas num CD. 

Eu olhei para cima assim que desviei os olhos do disco quebrado no chão e vi o condomínio da outra esquina, que, na minha cabeça, só me lembrava, até àquele momento, algo como "estou um quarteirão mais perto de casa. Fome. Fome". Mas aí pensei que podia ter uma garota que morava ali. Na janela que dava para a frente do prédio. O que, por si só, já mostraria uma estupidez por parte de seu namorado, que largou os cds bem na esquina da rua dela. 

Namorada? Garoto? Largou CDs na rua dela? Do que eu tô falando? Poxa, é meio óbvio. Eu fui levada a crer que a garota teve seus momentos. Hilary Duff, aos, sei lá, 12 anos, quando passava Lizzie McGuire na TV. Foi mexer numas caixas antigas e acabou encontrando restiços de uma fase que ela gostaria de esquecer. Com seu namorado à sua porta, ela se envergonhou do que tinha em mão e, puff, tacou a memória de sua pré-adolescência pela janela. 

O da dupla antiga lá, eu imaginei que tivesse sido seu pai ou até um tio que havia lhe dado. Ela gostou tanto, mas tanto que resolveu fazer uma cópia pro então namorado. Ele deve ter olhado para aquela dupla de quase carecas na capa e riu por dentro. "Aham, vou ouvir isso sim", disse, enquanto jogava a capa do CD copiado pela namorada para trás, ao sair da casa dela. 

Pois é, um casal de porcos. Também acho.

Aí vem o drama todo do relacionamento, o momento "ah, meu deus" do dia: depois dos (falsos) elogios do namorado em relação ao CD copiado, ela decide fazer um "personalizado". Mas que ótima ideia! Todas aquelas músicas e bandas que ela queria que ele ouvisse e a oportunidade de poder chamar algumas canções de "nossas". Genial. 

Ela foi lá. Separou as músicas com todo carinho, baixou em qualidade aceitável, saiu, comprou um cd, errou na hora de queimar o disco, voltou, comprou outro e pediu para que alguém lhe ensinasse como se fazia. Fez tudo em segredo, para ser uma surpresa. Com sua caligrafia desajeitada escreveu com aquelas canetinhas grossas demais para CDs: "músicas que me lembram você" ou alguma baboseira dessas. 

Queria arranjar uma caixinha de CD, mas não conseguiu, então entregou o disco na própria embalagem de papel em que o negócio veio. Ele olhou, sorriu desajeitado, deu-lhe um beijo e agradeceu pelos 5 meses juntos. 

No final da noite, ele se despediu dela, desceu as escadas e tirou o CD do bolso exageramente grande da capa de chuva. Ao virar a esquina, olhou para trás e para cima, para se certificar que ela não o acompanhava da varanda ou da janela de seu quarto. 

Trec. Quebrou o CD em dois, largou lá, pelo chão - não queria ouvir música nenhuma, só sabia que a amava. E pronto.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Escondido.

- Ei, vai fingir que não me viu? Também tô feliz por te ver.
- Eu também. É só uma surpresa…
- Boa?
- Estranha. Olha, é que ele tá por aqui, não sei é uma boa ideia.
- Não perguntei dele.
- Só achei que você devia saber.
- Por que eu não te vejo mais? É ciúme?
- Não… é só que não tem dado tempo…
- Mas quando tem você não me liga...
- Não é assim.
- É tão fácil quanto era antes.
- Tenho que ir.
- Não tem não. Cadê ele?
- Ele não tá aqui.
- Ué, você disse que tava.
- Eu menti.
- Como sempre.
- Quem é você pra me acusar?
- Ninguém.
- Deixa eu ir.
- Por que você reluta tanto?
- Porque não deu certo.
- A gente nunca tentou.
- Não insiste. Você não entende.
- Se ele não tá aqui, por que você não tá com ele?
- Por que você tá aqui?
- Isso foi uma pergunta ou uma afirmação?
- Para com isso.
- Tô te perguntando: e ele?
- Por que você tá tão preocupado com ele?
- Porque eu quero dizer que sinto sua falta.
- Não brinca comigo.
- Você nunca reclamou disso.
- Não estraga tudo de novo. Eu cansei.
- Eu também.
- Eu vou embora agora. Foi… foi legal te ver.
- Vou com você.
- Que é? Vai me levar em casa?
- Bom, ele, pelo visto, não vai. Minha casa é mais perto.
- Eu sei o caminho.
- Eu sei que você sabe.
- Quis dizer para a saída.
- Volta aqui.
- Eu cansei de voltar pra você.
- Mas agora é de verdade.
- Nunca é.
- E se agora for?
- Tarde demais pra saber.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Lembranças.

Lembra da primeira vez que fomos ao cinema juntos? Lembra quando atravessamos a maior rua do bairro e tiramos fotografias por aí? Lembra daquela noite que a gente sentou no píer e eu levei a garrafa pra casa? Daquela vez que você dormiu aqui em casa? Do dia que você brincou com as pontas do meu cabelo? De quando a gente foi naquele restaurante legal?

Lembra do dia que você disse que me amava?

Pois bem, joguei o ingresso fora hoje. Rasguei as fotos. Quebrei a garrafa. Joguei os lençóis fora. Cortei o cabelo. Ouvi dizer que o restaurante fechou semana passada.

Esqueci.

Lembra da música que você me mostrou no dia em que nos conhecemos?

Nunca. mais. parei. de. ouvir.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Foi pro lixo.

E quantas notinhas de rodapé em folhinhas de escritório amarelinhas
não confessaram amores platônicos
e foram cruelmente jogados na cestinha,
simplesmente porque alguém
não
viu.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Briguei com a rosa.

Me assusta que eu tenha a rosa mais bonita do jardim nas mãos e ainda assim não tenha perdido o desejo insano dos homens de destruir e arrancar, uma por uma, cada pétala. E me dá dó, que logo você, meu amor, se pareça tanto, mas tanto, com a última rosa da minha jardineira.

sábado, 26 de outubro de 2013

Te-me perder.

Hoje faz um ano que eu desisti de você. 365 dias desde que me forcei a te ver por aí e não me importar mais com o teu sorriso torto. Não ligo mais se ouço tua voz pelos corredores; se o telefone toca não é o seu nome que eu espero ver no visor. Tenho dó porque você nunca saberá o quanto eu te procurei na TV, que eu te escrevi um poema numa terça-feira à noite. E (não) saber, meu bem, vai ser sempre o maior erro que deixamos de cometer. Mas deixa estar. Meus lábios agora têm outros donos, meu sorriso pertence a outros alguéns. Não me importa se você sente remorso em me ver de mãos dadas por aí com um rapaz que não se parece nada contigo. 

Era só um jogo. Nosso placar jamais sairia do zero a zero. Parece empate, mas foi derrota. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Te incomoda que me incomoda?

Tinha um problema bem aqui, deixando tudo meio dormente, mas focando tudo naquele lugar ao mesmo tempo; fazendo meu coração bater rápido, meu pulmão parecer apertado, meus dedos não parecerem firmes; me impedindo de escrever, de pensar em coisas boas. 

Tinha algo insignificante, na verdade. Eu nem sei, não tinha sentido. De repente, um desconforto crescente foi me tomando; foi me tirando o sono, me deixando irritada durante o dia, me tirando a capacidade de raciocinar; que fazia meu estômago revirar, minha cabeça doer e latejar. 

Tinha um problema bem aqui. Observei, inerte, enquanto ele se transformava quase como uma nuvem cada vez mais negra agora já relampejando, os trovões começam a me atordoar, me enchem de medo e agora eu já nem saio mais da cama. Alguém me cobre?

Tinha um problema bem aqui - agora ele está me cercando, eu o vejo em todo o lugar;  ele precisa ser cortado pela raiz, mas a minha tesoura está sem fio. Eu não sei como me livrar dele. Eu precisava tanto de ajuda... Não tem ninguém.

Tinha um problema bem aqui. Aqui. Perto. Perto demais! Me debato, como um cachorro tentando se secar, tentando tirá-lo de cima de mim; me pressionando para ser alguém que não sou; me pressionando para fazer coisas que eu não quero fazer. Sai, sai, sai!

Tinha um problema bem aqui - alguém veio e me entregou uma vassoura. Mas ela era pesada e eu fiquei com a mão calejada. 

Tinha um problema bem aqui, até que alguém veio com uma pá e não deixou que eu varresse tudo para debaixo do tapete.  Me ajudou a jogá-lo fora. Viva, minha alergia sumiu! De repente, não sei onde ele foi parar.  Acho que se evaporou, no processo contrário ao que surgiu. Não sei direito o que aconteceu; o que viu. 

Tinha um problema bem aqui. Aquele que tanto me atormentava... Ele se... foi. Meu peito deveria estar vazio, livre! Mas eu só consigo pensar para aonde ele foi, quando (e não se) ele vai voltar... 

Espera! O que é aquilo na esquina?

Tem um problema ali...

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Traída.

o nome do jogo é o mesmo:
paciência ou solitário;

a carta era pra você
mas tava endereçada pro seu adversário.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

SimPliCIDADE.

Tem gente que diz que o povo do sudeste é mais receptivo. Bem, eu não sei a quem eles se referem, mas eu sei que aos paulistas, por culpa tempo frio, ou sei lá, não é. Eles usam óculos escuros durante o café da manhã e não sorriem para as pessoas na rua. Numa cidade que vive de negócios e vive com turistas e empresários (se estressados, problema deles), o mínimo que eu pedia era um sorriso. Até porque, para mim, cara feia é fome. Todo mundo parece estar com muita pressa, até no final de semana. 

Apesar de toda antipatia (minha, por eles e deles, para mim), sempre achei que São Paulo tinha muitas opções de restaurantes, bares e museus. A variedade sempre me pareceu maior. Arte é sempre arte, tudo bem, mas eu gosto mesmo é de sair andando por aí. Ver como as coisas funcionam. Meus pés podem até reclamar, mas... Feirinhas, por exemplo? É comigo mesmo: conversar com os vendedores (quase sempre moradores da cidade há anos, já com certa idade - a voz da experiência!) e ver o comportamento da gente da rua!

Lá estava eu, naquela feirinha. Só de coisas antigas, que nem aquela lá da Praça XV lá do Rio. Não lembro do nome da rua, nem muito menos do bairro. São Paulo me confunde, perco o senso de direção. Os prédios me parecem todos imponentes - e mesmo assim iguais; as casas e muros estão sempre pichados. Me parece suja e, mesmo assim, altamente valorizada - marcada por algo mais confuso que seu funcionamento caótico.

Eu me reconheci meio àquele bando de coisa antiga. Vi uma réplica de uma caixinha que meu avô tinha, um tapete igual ao da minha outra avó. Tinha tanto talher, tanto espelho, tanto isqueiro, canivete... tudo aquilo tinha a história de alguém, escondida na poeira incrustada, no reflexo da prata polida, no pedaço lascado do móvel antigo. Mesmo detalhado, parecia ter perdido a funcionalidade dentre tanta tecnologia do novo milênio.

Que criança não tinha brincado com aquele Goku já escurecido pelo tempo? Umas miniaturas de Power Ranger - iguais àqueles do meu primo, com quem eu tinha brincado quase 15 anos antes - jogadas ali. E os brinquedos mais antigos, que nem o próprio feirante sabia como funcionava? - "Tá com pilha, quer ver como joga?", ele me ofereceu. Chego a hesitar em chamar aquele aparelhinho de eletrônico. Ao tocar, senti que tinha em mãos algo que revolucionou uma época.

Se hoje eu brinco com as crianças próximas sobre como elas nunca rebobinaram uma fita cassete ou mal entendem como um disquete podia ser útil a alguém, eu me peguei pensando se tivesse um senhor ali que me zombasse só porque eu não sabia como aquele game boy dos anos 50 funcionava. Mas como vivemos num mundo em que a tecnologia faz o simples parecer complexo, parece que meus olhos falham em enxergar a simplicidade da coisa. 

E dentre os vasos, as canetas de pena, os telefones de disco e tudo mais, afundada numa cidade que parece estar mais acelerada do que os seus habitantes poderiam suportar, me perguntei aonde perdemos o primor pelo simples. Por que os telefones de disco saíram de moda e agora estão voltando? Foi só a estética?

Bom, e se feiras e lojinhas de antiguidades continuam por aí, talvez sempre estaremos presos àquela velha história nostalgia de um tempo anterior. Estar insatisfeito com o presente é recorrentemente um câncer do mundo "atual em questão". As pessoas vão achar alguma saudade do passado, a simplicidade mágica que as fez esquecer dos problemas que as atormentavam. O futuro parece guardar soluções, como se de alguma forma o dia-a-dia não se repetisse daqui a alguns anos. 

Estamos sufocados entre tempos distantes que, na teoria e ilusão, guardam a solução para as nossas angústias. Apesar de um presente ser ganho todos os dias, ele é perdido no tic-tac de um relógio - seja ele digital ou de cuco. Isso porque nossos desejos estão deturpados pela complexidade de uma vida corrida e cegos para a simplicidade e beleza da pureza.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Sedento por atenção.

Seus pais sabem
que você anda por aí
chutando lixeiras
exagerando na cerveja?

E seus amigos, eles te entendem
quando você só esbraveja
sobre incompreensíveis sujeiras
da cena punk, política carioca

E me diz, sua namorada, ela sabe
de como você faz tudo de propósito
querendo fugir do ócio
desesperado por um atestado de óbito?

terça-feira, 17 de setembro de 2013

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

E se eu sumisse?

Já parou pra pensar se eu sumisse? Se você ligasse, ligasse e ligasse e eu não atendesse; ou se você batesse e batesse na porta da minha casa e ninguém abrisse? Nenhuma mensagem, nenhum cartão postal, nada. E se fosse de propósito? Você ia pensar, procurar todas as palavras que você nunca me disse porque sempre achou que teria outro dia... e se agora você não tiver mais? Onde eu estou, onde eu fui parar? Você teria vontade de ir atrás de mim ou você consegue se acostumar com o silêncio da minha ausência? Será que você não vai sentir falta do meu calor à noite, do suor quando os nossos corpos... nada? Você ia se conformar assim ou ia sentir saudade, a ponto de doer? Só de pensar, já te deu um aperto no peito, um medo indescritível, uma vontade de me invadir, tomar-me em teus braços e não me deixar sequer respirar? Você tem vontade de mim? Você me quer, não só por perto, mas pra você, quase como uma posse? Você já parou pra pensar que eu sou uma pessoa e pessoas vão e voltam? E que talvez eu não queira me sentir abandonada e que eu precise de você? E se quando você perceber isso for tarde demais? E se acabar? Tenho medo: já pensou que eu não posso esperar você achar as palavras depois de eu ir? E eu cansar... e se você cansar? Não me deixa ir embora, eu quero ficar. Fica? Eu te imploro, vê se me implora. Vê se não demora!

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

sábado, 31 de agosto de 2013

Masoquismo poético.


Meu barato é escrever algo
que te faça lembrar dela
e eu me ferir toda depois
quando nem com os olhos
você conseguir disfarçar
e ter todos os motivos
pra me largar.

(mas deixa eu ficar?)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Sócrates estava certo.

Mal deixamos as pessoas terminarem as frases ultimamente. Não é que queiramos falar, mas é que simplesmente não queremos mais ouvir. No entanto, não hesitamos em vomitar o que pensamos por aí, mesmo sem bom senso. O discurso é vazio e repetitivo. Pensar cansa e ninguém consegue mais dormir.  Queremos paciência, tempo e mais um bando de coisas mas não há foco pra nada. 

Tempo é perdido questionando o passado, imaginando porque nossos grandes amigos e grandes amores estão presos no ontem. Talvez eles simplesmente não mereçam um lugar no agora. E é estranho pensar que os grandes amigos e amores de hoje não pertençam necessariamente ao amanhã. O amanhã não é uma garantia e o passado já passou da validade. 

Perdemos o hoje com prazos, com a correria pra pegar o ônibus, pra chegar mais rápido em casa, para terminar de fazer o que “tem que fazer”. Temos pressa pra não fazer nada, pra ir pra cama pra ficar rolando de um lado pro outro, pensando nas mil besteiras que fizemos e falamos, nos sapos que engolimos e nas respostas que podíamos ter dado. 

Aparentemente, só nós mesmos somos sinceros, o resto é lorota. Afinal, furar fila da padaria nos faz mais malandros. Reclamações são constantes: no verão preferimos o inverno, e no inverno a gente quer praia. Dizemos não nos deixar levar pelos publicitários e filmes de romance. O experiente é mais atraente que o inocente.

Preferimos escolher o que quer sentir do que simplesmente sentir; desabafar com um estranho e pagar uns trocados do que se abrir numa mesa de bar. Queremos carinho, mimo, dizer que precisamos, que vamos chorar senão formos amados - ao invés, dizemos que vivemos bem sozinhos. Nos negamos demais. Fingimos que não nos importamos, porque aparentemente se importar indica fraqueza. Dizemos não nos acomodar. Nos escondemos em corações de pedra, sorrisos quadrados e infinitos discursos de "sou melhor que isso" ou "não preciso disso".

Tem aquele medo de parecer vulnerável e eu me pergunto porquê. Talvez nos envergonhamos de dizer que o mundo está ficando maluco mesmo e a gente está ficando junto. Aparentemente, a razão é mais digna de se ouvir do que o coração. 

A realidade nos assusta e nos jogamos na superficialidade. É tanto medo de se machucar que talvez jamais saberemos se a dor não valia a pena, se é que iria doer. Estamos perdidos, mas todo mundo parece saber apontar uma direção. A gente se prende ao não se prender. 

Perdemos tanto ficando presos numa cidade só, frequentando sempre os mesmos lugares, vendo a mesma gente. Tem um mundo com 7 bilhões de pessoas e nos sentimos mal quando nos apaixonamos pelo cara que 'tá sentado do nosso lado no ônibus. Parece que estamos vivendo de verdade, mas não conhecemos nem metade das pessoas, das sensações, dos lugares! Não vimos todas as obras, não lemos todos os livros, não ouvimos todas as músicas - que dirá ter sentido tudo isso. 

Parece que simplesmente "somos jovens" e isso serve de justificativa para alguma coisa. Para viver? Idade não me parece tirar esse direito. E nos achamos velhos e por isso sabemos de tudo: só pela idade? Viver não é um número. Nos preocupamos com a dengue mas não botamos terrinha no vasinho; com a memória mas ninguém monta quebra cabeça no tempo livre; com o câncer mas ninguém passa protetor solar antes de sair de casa; a gente diz que tem insônia mas acorda às quinze querendo dormir às dez.

Achamos, mas não encontramos. E no final das contas, perdemos. A gente esquece de como é bonito um sorriso sincero, da força das palavras e de como é bom chorar às vezes. Esquece que não tem nada de errado em precisar de alguém e que é bom cuidar e ser cuidado. E que é bom sentir o sol na pele, o vento, a areia nos pés, o cheiro da chuva. Coisas pequenas fazem a diferença. 

Nós não notamos a vida passar. E em vez de entregar-se à vida, a gente acaba a entregando por aí.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Impedida.

O tempo vai passar. Dizem que ele deveria curar. Na melhor das hipóteses, te ensinar alguma coisa. Você não vai saber dizer se funcionou. Sempre tem um perfume parecido, um verso que não te é estranho para dar aquela enfraquecida no coração quando você menos espera.

Quando isso acontecer, você vai passar na locadora e vai alugar todos aqueles filmes favoritos dele. Só pra ver como era. Não que ele não tenha tentado assisti-los com você antes, mas você nunca prestou muita atenção. Aquelas fantasias todas sem sentido, aquelas criaturas esquisitas... você tinha sempre outro dia pra entender. Não houve outro dia. Agora, deitada no sofá cinza sozinha, você assume pra si mesma:  "tudo bem, aqueles filmes até que eram divertidos."

Então, você tira do AV e joga para a programação paga. Tem uma maratona do programa favorito dele. As piadas são legais, mas você já conhecia todas. Podia ouvir a voz dele entre os famosos personagens. Imitações eram mais engraçadas. 

No toca-CD, discos das bandas que você amava odiar. As canções, agora, pareciam ter sido feitas pra você. E tinham um gosto amargo. Não era ele tocando no violão, sentado ali na varanda. Tudo bem, ele era meio desafinadinho mesmo. 

Nada disso era surpresa. Ele até dizia que aprender a gostar dessas coisas era só uma questão de tempo e maturidade. Você ainda se guiava pelo bom senso dele. O ponto todo, na verdade, é que você podia se esforçar o quanto quisesse para entender e gostar daquilo tudo, mas você sabia que ele não se surpreenderia ou voltaria por causa disso. Já era tarde.

E é por isso que, de todas essas coisas, só uma coisa causa confusão mesmo. É que ele também tentou, por meses à fio, te fazer entender futebol com o melhor time do mundo. Você nunca deu bola. Mais do que qualquer coisa, você jogava para escanteio. Só que até pro futebol você 'tava dando outra chance.

Fazer você gostar de ver jogo era o maior desafio dele. O seu também vai ser. 

Não é à toa: afinal, é pro Vasco que você tá tentando torcer... 

(Só queria dizer que não é difícil aprender a gostar de FRIENDS, de Green Day ou de histórias épicas. 
Difícil mesmo é tentar gostar de futebol vendo jogo do Vasco.) 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Vai saber.

A maior dúvida
ao se enamorar por alguém
que vive de compor
é nunca saber se os versos
são sobre você
ou outro amor.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Invenções raras.

Pensei ter escrito um verso subjetivo
bem de um jeito alternativo;
que todo mundo gosta afinal
mas acaba que é tudo igual:
se a vida se repete
só temos um banquete
de ciclos eternos
de passados modernos.

Podia ser genial,
mas segue o manual.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Caras prostradas da Ayrton Senna.


Tinha um senhor sentado com a cabeça encostada no vidro da janela do ônibus em que eu voltei pra casa na noite passada. Eram oito horas e seu olhar era vago. Mas não era um vago no sentido de "não estou pensando em nada": era uma espécie de "quero ir pra casa" melacólico, quase nostálgico, solitário. E "casa" no sentido de um lugar seguro e não de moradia. 

Parecia que aquele senhor de olhos míopes tinha passado a vida inteira sentado naquele lugar do ônibus, esperando o ponto certo pra descer. Ao mesmo tempo, não parecia querer descer, parecia estar ali pra fugir de alguma coisa, rumo a lugar nenhum. Não parecia cansado fisicamente, nem entediado. Muito pelo contrário: parecia estar pensando em algo denso, forte. Seus pensamentos pareciam ser tão altos que transbordavam no olhar, me incomodavam de alguma forma. Seu semblante era tranquilo mas parecia que a sua cabeça era um turbilhão e seu peito afundava em saudade. 

Imaginei que a esposa dele devia estar esperando-o em casa, com a janta quase pronta. Sua filha mais nova devia estar pra casar e ele estava perdendo um pouco o seu anjinho. Seu filho mais velho devia estar trabalhando em Curitiba fazendo mais dinheiro que ele jamais achou que faria, mas de alguma forma a vida tinha separado os dois de uma forma que, infelizmente, não era só física. Eram problemas cotidianos. Era mais do que isso também. 

Aquele senhor tinha entrado naquele ônibus e o engafarramento tinha se tornado um divã para suas saudades. Não era exatamente arrependimento, mas os carros passando mais rápido do lado de fora do vidro fazia parecer que ele podia ter tomado decisões mais justas com os seus sonhos, se ele não tivesse tido tanta pressa de correr para pegar aquele ônibus. Talvez se ele tivesse pego o outro, esperando quarenta e cinco minutos no ponto da Nossa Senhora de Copacabana, ele não estaria naquele engarrafamento. Tudo bem, talvez não conseguisse um lugar pra sentar, mas pelo menos não teria encostado sua cabeça no vidro e não estaria pensado no que não foi, julgando o que conquistou.

A vida segue. Que nem os carros do lado de fora, que nem a mão do guarda de trânsito que mandava a fila de automóveis perpendicular seguir. Que nem o engarrafamento que simplesmente faz um nó e passa, simplesmente, como se nada tivesse acontecido alguns quilômetros à frente. 

Algum tempo depois, o senhor percebeu que eu olhava intrigada para ele. Assim que nossos olhos se ligaram, eu desviei os meus, mas não por timidez: eles pareciam mais confusos ainda vistos de frente. Um lugar vagou e eu sentei-me. Mexi meus pés cansados, chequei o relógio: mais de meia hora no mesmo lugar. Suspirei. Fechei os olhos e quando os abri, minha cabeça também estava encostada no vidro do ônibus. 

Lembrei do olhar do senhor que tanto me incomodava. Me perguntei se aquilo ia me marcar pra sempre. Pensei que a gente corre pra pegar o ônibus mais vazio, pra tentar conseguir um lugar, pra tentar fugir do trânsito, pra chegar em casa mais cedo possível. Olhei para as incontáveis luzes de freio dos carros pretos, cinzas e brancos a minha frente. Vi a Ayrton Senna parada a minha frente. Olhei à minha volta, vi dezenas de pessoas cansadas, ansiando para chegar em casa. 

A preço de quê? De que adianta a pressa? De que adianta planejar e cronometrar cada sonho e objetivo que a gente tem, se a vida tem a sua forma de coordenar as coisas com os mil e um acasos e coincidências? Não é simplesmente fazer as pazes com o destino e deixar nas mãos dele, mas a julgar pelos olhos daquele senhor e do clima de cansaço naquele ônibus, eu poderia jurar que nada adianta as pessoas se martirizarem tanto quando as coisas não dão certo. Nem sempre é pra ser, às vezes é melhor que nem seja. 

Concordo: não é o tipo da realização filosófica que consola. 

Além do mais, quem disse que o raio do senhor não estava simples e naturalmente... cansado?

Problema ou ponto chave?

O problema não é achar que é pra sempre:
É querer que seja pra sempre.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Garotas, vocês nunca vão ouvir isto.

Eu tinha que falar com você. Não aguentei. Aquele dia no restaurante com ele foi demais pra mim. Foi naquela noite que eu percebi tudo o que você teria me prometido. Eu achava que tudo isso era besteira, mas agora eu vejo que teria aproveitado cada uma delas se você fosse que estivesse ao meu lado. 

Eu vi. Eu vi o seu sorriso encantado enquanto ele falava ao seu ouvido. Meu deus, como tanta coisa pode acontecer entre os olhares de duas pessoas e os outros nem saberem? Eu quis virar aquela mesa de madeira. Senti raiva. Passou a ser torturante só observar. 

O tempo perdido queimou no meu peito. Eu senti três, quatro anos anos evaporando, agora eu via... eu vi o resto da minha vida se perdendo quando ele sussurrou "eu te amo" no seu ouvido. Você extremeceu, eu quis acabar com ele e te fazer minha. Ali mesmo.

Me diga, vale tanto a pena assim? Não, troca essa pergunta: é tarde demais? Eu vou estragar tudo se eu disser que estou arrependido? Estou muito atrasado, não estou? 

Eu não sei aonde eu estava com cabeça... todas aquelas garotas, aquelas festas, o tempo que eu fiquei fora... E você esperando. Acho que você simplesmente cansou.

Agora, sentir ciúmes, inveja, sei lá... me parece injusto, quase estúpido. Não porque é um sentimento digno de pena, mas porque você me quis por tanto tempo e eu nunca achei que era de verdade. Alguma coisa não me deixou te transformar em só mais uma e hoje eu me castigo por não ter te tornado única. 

Você deve lembrar de mim às vezes. Não é possível que os flertes não mexam com você, nem um pouquinho. Eu sei que é brincadeira, eu sei que você gosta do cara com quem você está. Mas tem algum pedaço aí que ainda gosta do garoto frio. Você sente minha falta. E eu sei que eu sou um babaca por me deliciar com isso.

Vejo vocês juntos e isso revira com meu estômago. Era você a garota que eu estava procurando entre as cervejas, tequilas e não sei mais o quê. Você sempre bem nas minhas mãos, pronta pra ser minha e agora... o tempo acabou. Talvez eu estivesse enrolado demais em cabelos loiros platinados para enxergar. Você largaria tudo? Seria capaz? O tempo que eu joguei fora lateja pelo meu corpo. Eu faria cada pedaço seu completamente feliz. Vamos, eu te toco uma música na viola e deito minha cabeça no seu vestido. É covardia, eu sei. 

Quero cada segundo de volta, mas o relógio não é meu amigo, é? 

Só sei que eu olho para você e me sinto em casa - e você bem sabe há quanto tempo eu tô fora. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Amor de jornal.

Era o nosso aniversário de namoro. Casados há cinco anos, a verdade é que muitos casais simplesmente se esqueciam dessas datas que, por algum motivo, acabavam se tornando menores. Sempre discordei disso, mesmo tendo caído nesse buraco. Nos dois últimos anos, o dia quinze de fevereiro tinha passado em branco.

Não este ano. Por algum motivo, assim que virei o primeiro mês do novo milênio, a data saltou-me aos olhos, como uma surpresa. Depois que casamos, nunca mais comemoramos o dia 15. A gente até lembrou, no início, mas era só isso. Fiz as contas: já somávamos oito anos juntos, fora os outros de algo que as pessoas cismavam em dizer que era mais do que uma simples amizade.

Era engraçado pensar no tempo que já fazia. A relação se transforma, torna-se mais consistente e "madura" - alguns gostam de chamar assim, eu acho que isso é sinônimo para comodismo, no entanto, não deixa de ser verdade! É assim que as pessoas funcionam!

De qualquer forma, me levantei. Você estava jogado ao meu lado, na mesma roupa com que chegara do trabalho na noite anterior. A camisa social aberta e amassada, os sapatos sociais jogados no pé da cama. Era chato imaginar que você queria ter feito outra coisa da vida. Ter virado ator, sei lá. Às vezes eu me culpo um pouco por isso, sabia?

Eu te afaguei os cabelos, te dei um beijo na bochecha amassada e me levantei. Acho que você nem sentiu, você estava bem apagado. Não ia fazer café especial. Acho que nem tinha vontade de falar nada. Uma parte de mim só queria que você também soubesse e pronto, a gente seguiria com nosso dia normalmente.

Era terça-feira de carnaval e a gente nem tinha conseguido aproveitar. Não que a gente ligasse pra carnaval, mas parecia uma boa ideia ter um tempo livre. Era a minha primeira folga desde o Natal. A sua então, nem me lembro. Um dia na cama bastava.

Fui até a cozinha. O cheiro de café fresco perfumou o ar, talvez isso tivesse te acordado. Quando eu despejei o leite para misturar na sua xícara, você perguntou se eu já tinha lido o jornal que estava na minha mão. Terminei o caderno de esportes e te entreguei. Você me deu um sorriso que eu não via há muito tempo, me beijou e sentou ao meu lado. Você também não fazia isso há muito tempo. Com tantos "você não fazia isso há muito tempo" eu achei, por um momento, que talvez você tivesse se lembrado. Como sempre, você me surpreenderia.

Sabe o que eu estava pensando? Lembra o lugar da nossa primeira conversa, você perguntou, eu pensei em dar um pulo lá hoje. Eu sorri por trás do segundo caderno d'O Globo, você nem viu. Então, continuou: eu sei que já são quase onze, mas tomando café à essa hora, eu acho que a gente só vai ter fome mais tarde. Aí a gente passa a tarde lá... era tão agradável, lembra?

Era claro que eu lembrava! Como eu poderia esquecer!? Tudo bem, talvez eu não lembrasse da cor da sua blusa, do tênis que você usava, mas eu lembrava do seu olhar e do seu sorriso envergonhado. Eu lembrar do dia já era um avanço, mas não lembro da hora. Não vou me desculpar por isso, tá? Parece que faz tanto tempo e, ao mesmo tempo, comparado a tudo que temos planejado, parece que foi ontem!

Eu concordei e você exclamou alguma coisa sobre o flamengo, alguma contratação estúpida na capa do caderno de esportes. Só Deus sabia como eu agradecia por você ser flameguista. A melhor coisa que fiz foi ter largado aquele vascaíno antes de você. Meu avô, em algum lugar, se orgulhava de mim por isso. Todos os maridos e esposas dos netos eram tricolores, menos você. Acho que vocês dois teriam se dado muito bem.

Eu voltei meus olhos para o segundo caderno. Gilberto Gil estava na capa, falando alguma coisa que, provavelmente, ninguém entendeu. Mas, como era Gil, era a capa.

Terminamos o café, trocamos os jornais (a gente sempre deixava para ler o de Economia e País na sala, não sei porquê?). Eu me levantei, fui pro banho. Quando eu sai, ainda de toalha cinza, você estava sentado na beirada da cama, de bermuda vermelha, me esperando. Me olhou, de novo, como não fazia há muito tempo - acho que não era desinteresse, não você só andava muito cansado mesmo. Respirei fundo, tremendo como se tivéssemos 17 de novo. Todo mundo dizia que era cedo para namorarmos sério, para casarmos. Fugi tanto de acabar como minha mãe, casada aos 26, que me casei aos 20. Olha que loucura!

Eu me aproximei. Você me pegou pelos quadris, beijou minha barriga por cima da toalha fofa. Olhou para cima, sorrimos. Eu gosto dessa imagem na minha cabeça. Você me puxou. Eu cai em cima de você, cada perna de um lado. Você beijou meu pescoço e sentiu cada pêlo do meu braço arrepiar. Sorriu. Você adorava perceber as respostas dos seus estímulos, né? Seus braços travaram nas minhas costas, me fazendo prisioneira.

Meus cabelos curtíssimos da franja pingavam no seu rosto, que eu beijei ternamente. Seus olhos estavam mais claros com a luz do sol que invadia brutalmente o quarto naquela manhã - castanho quase negro se tornando mel. Aliás, brutal era aquele beijo que você me deu, que começou tão tranquilo. Rapidamente, a toalha molhada pareceu desgrudar do meu corpo e você a quis jogar longe, como sempre fazia. Eu a segurei. Vamos, eu disse, senão a gente não sai da cama hoje.

Você sorriu, maroto, porque sabia que era verdade. Pulou para fora da cama, jogou a bermuda em cima de mim e ligou a água do chuveiro. Com a porta aberta, o vapor invadia o quarto. Eu mandei você fechar para não molhar o tapete, você riu mais uma vez. Você estava estranha e especialmente alegre naquela manhã.

Nos arrumamos. Eu coloquei um vestido azul que você me dera na Páscoa anterior e um casaco um pouco mais escuro, um presente espontaneo da sua mãe, tão bem entedida do meu guarda-roupa. Aliás, eu gostava muito de me dar bem com ela. Você botou sua bermuda "beje de passeios casuais do final de semana" e uma blusa qualquer que estava na gaveta. Você não vai sentir frio, você me perguntou, e eu balancei a cabeça, dizendo que, se fosse o caso, eu tinha alguém para me aquecer.

Saímos de casa já era quase uma hora; a gente sempre enrolava um pouco, não vou dizer de quem é a culpa, se não isso poderia ir por horas. A rua movimentada naquele carnaval parecia esperar ansiosa a formação dos primeiros blocos do dia. Uma parte de mim era tão externa àquilo tudo que eu mal lembrava do porquê dos bloquinhos de carnaval do bairro... pensando bem, acho que ninguém sabia!

Morando aonde morávamos, estávamos perto de qualquer lugar. Não era diferente do nosso destino. Demos uma volta pelo bairro, decidimos caminhar um pouco até o Jardim Botânico, até que passasse um ônibus que nos deixasse na Urca. Você se lembra? Acho que era o 512... Veríamos no visor de qualquer forma.

O dia estava bem agradável. Sabe quando as condições climáticas estão de acordo com o nosso interior? Dizem que isso é o dilema dos poetas - que é um problema quando eles se sentem numa tempestade e o sol brilha lá fora. Como se o nosso humor dependesse do sol! O vento que batia, vindo do Jardim Botânico, também ajudava a deixar o ar mais leve, é verdade. Não sei se você também se sentia assim. Depois de uma boa caminhada, tomamos o ônibus que nos servia e, bem rápido, chegamos na Urca.

A Praia Vermelha tem um charme maravilhoso, não tem? Não é só porque ficamos pela primeira vez lá, não. Mas ela é tão pequena, tão na sua... Não sei. Para a nossa sorte, não tinha quase ninguém ali naquele início de tarde. Passamos por aquele parquinho de crianças ali da frente e nos sentamos não na areia, mas no calçadão de concreto, com as perninhas penduradas para fora. Você segurou minha mão e eu encostei minha cabeça no seu ombro.

Se o Sol não tivesse se movendo sobre as nossas cabeças, eu podia jurar que o tempo tinha parado um pouquinho ali. Eu podia ouvir nossos corações batendo, tal como daquela primeira vez. Por um momento, eu achei ter saído de mim e isso me assustou um pouco. Eu vi os nossos últimos oito anos e bem, eu não vou mentir.

Eu achei que seríamos outra coisa.

Meu amor, as coisas não foram fáceis. Tudo bem, a gente deu sorte, saímos da faculdade que a gente mal sabia se queria ter feito e nos enfiamos em "bons trabalhos". Você que tinha mania de pôr aspas. Seus pais foram bons o bastante para nos dar aquele apartamento como presente de casamento. Devemos muito a eles por isso.

A gente bota comida dentro de casa e eu amo o lar que temos, você sabe disso. Eu não o trocaria por nada. O bairro é fantástico. Eu sei que é cedo para termos filhos. Estou louca para irmos para Nova York, mas não sei se essa viagem acontece no final desse ano ou do outro. Por que esses planos nunca sairam do papel?

Mas o que me assustou, não foi nada disso aí. Em termos concretos, não seríamos nada além do já somos. Isso é incrível. Mas e o "eu e você"? Meu amor, meu medo de casarmos era esse. De que dias como hoje se tornassem especiais. Tudo bem, eu sei, amor é idealizado, casamento nunca é como no cinema. Mas éramos tão inconvencionais! E somos tão jovens para sermos tão apegados à uma rotina dessas!

Não, não, não. Eu me recuso, meu bem. Não podemos fracassar assim. A culpa também é minha. Eu sei que não temos brigas, problemas concretos. Mas eu não posso te perder metaforicamente. Não posso dormir com um estranho - não que você já tenha se tornado um.

Tô falando do nosso dia a dia. É, não é isso que temos? Os cafés da manhã, os finais do dia, os finais de semana... Nosso trabalho é tão exaustivo! Não podemos esperar por datas comemorativas para sermos amantes! Meu amor, não podemos esperar por fins para sermos como éramos antes.

No meio da minha experiência quase extracorpórea, nos vendo sentados à beira mar, você exclamou: engraçado, como as coisas estão mudadas! E mal você sabia que a metáfora servia tão bem pro que eu estava pensando... Você continuou: É areia, é mar, é rocha, eu sei. Mas... parece outro lugar, não parece?

Você me puxou para mais perto naquela tarde de Fevereiro. De alguma forma, o Sol evaporou meus medos e duvidas. No final das contas, não importava muito a situação da obra da cozinha ou com qual família passaríamos o próximo Natal.

Se eu tivesse entre teus braços, eu ainda podia ser sua namorada, noiva, mulher. E entre eles, eu sei que não haveria nenhum outro lugar onde eu queria estar. Olhando para aquelas pedras que o mar batia incansavelmente há, pelo menos, oito anos, eu sabia que o nosso amor jamais viraria areia.